“J’existe parce que je pense…” — “Existo porque penso.”
É a constatação visceral de um personagem mergulhado não exatamente numa existência medíocre, mas numa existência que, de repente, perdeu a proteção das aparências. Em “A Náusea”, leitura fundamental para quem deseja adentrar o universo existencialista, Jean-Paul Sartre nos apresenta Antoine Roquentin: um homem que descobre, com assombro, que existir não é uma ideia abstrata. Existir é uma experiência concreta, incômoda e, por vezes, insuportavelmente lúcida.
Algumas dessas constatações me vieram à mente nos últimos dias, enquanto tenho procurado levar às grandes redes escolares de Curitiba uma proposta que considero urgente: falar abertamente sobre saúde mental. Em todas elas, fui muito bem recebido. Encontrei escuta, interesse e sensibilidade. Ainda assim, de minha parte, permanecia um vazio. Algo não se completava na proposta que eu havia escrito como roteiro para uma palestra.
Não faltavam conceitos, informações, exemplos ou possibilidades de diálogo. Faltava, talvez, aquilo que deveria anteceder todos eles.
“É sobre existir”, pensei.
Antes de ser uma palestra sobre transtornos, sintomas, diagnósticos, prevenção ou acolhimento, precisa ser uma conversa sobre a existência. Sobre o que significa estar no mundo, habitar a própria vida e suportar a consciência de si. Sobre o desafio de permanecer quando tudo parece pesado demais. Sobre a coragem, tantas vezes silenciosa, de continuar.
Ao final, a constatação de Roquentin — de que a consciência é incapaz de escapar completamente da percepção de si mesma — faz muito sentido.
Existo.
Penso.
Estou aqui.
“Estar aí” no mundo: eis a questão.
Estar no mundo é estar diante dele, diante do outro e, inevitavelmente, diante de si mesmo. E como fugimos desse encontro fatal.
Preenchemos os dias com tarefas, metas, notificações, compromissos e cobranças. Corremos para não perceber que estamos correndo. Produzimos para não perguntar por que produzimos. Ocupamo-nos para evitar o silêncio, porque sabemos que, quando o ruído cessa, alguma coisa dentro de nós começa a falar. “Algo pensa em mim”, diria seu colega Nietzsche.
Foi então que pensei em formular este editorial, tomando os recursos sartreanos como base para o meu exercício filosófico.
Existo. Penso. Estou aqui.
Mas como encontrar sentido numa existência que esbarra num cotidiano repetitivo, competitivo e quase integralmente dedicado à obtenção de resultados — acadêmicos, profissionais, sociais e financeiros? Como existimos quando somos continuamente avaliados por aquilo que entregamos, e quase nunca reconhecidos por aquilo que sentimos? Em que momento deixamos de perguntar a alguém como ele está e passamos a perguntar apenas quanto produziu, que nota alcançou, em qual universidade ingressou ou que posição ocupa?
Talvez tenhamos transformado a vida numa extensa prestação de contas.
Desde cedo, nossas crianças aprendem que precisam chegar a algum lugar. Precisam alfabetizar-se no tempo esperado, alcançar boas médias, corresponder às expectativas da família, adaptar-se às exigências da escola, construir um currículo admirável e demonstrar que estão preparadas para o futuro. Na adolescência, a cobrança se intensifica. É preciso decidir uma profissão, preparar-se para o vestibular, administrar as relações, o corpo, a sexualidade, as inseguranças e ainda apresentar ao mundo uma versão estável, bonita e bem-sucedida de si.
Ensinamos nossos jovens a resolver equações, interpretar textos, identificar processos históricos e compreender estruturas biológicas. Tudo isso é necessário. Mas será que os ensinamos a reconhecer a própria dor? Será que lhes mostramos como pedir ajuda? Será que criamos espaços nos quais possam dizer “não estou bem” sem temer o julgamento, a exposição ou a decepção dos adultos?
A escola ensina muitas formas de responder. Talvez tenha chegado o momento de ensinar também a formular perguntas:
Quem sou eu para além das expectativas que depositaram sobre mim?
O que permanece quando retiro as notas, os resultados e as imagens que construí para ser aceito?
Por que me sinto vazio mesmo quando tudo parece estar dando certo?
A quem posso recorrer quando permanecer se torna difícil?
Essas perguntas não cabem numa prova. Não podem ser respondidas por meio de alternativas assinaladas. Exigem tempo, presença, vínculo e coragem. Exigem adultos dispostos a ouvir sem imediatamente corrigir; acolher sem minimizar; orientar sem controlar. Exigem uma escola que reconheça que educar não é preparar alguém apenas para disputar um lugar no mundo, mas ajudá-lo a encontrar razões para habitá-lo.
Falar de saúde mental nas escolas, portanto, não pode ser somente uma ação pontual, restrita a uma campanha ou a um mês do calendário. Também não pode se limitar à apresentação de estatísticas ou listas de sintomas. Tudo isso possui importância, mas não basta. Precisamos falar da experiência humana que antecede os números: a solidão que ninguém percebe, o medo de decepcionar, o cansaço escondido atrás de boas notas, a angústia encoberta pelo riso, a sensação de inadequação e o desespero de quem acredita não haver lugar possível para si.
Precisamos falar sobre existir.
Sartre nos lembra que não recebemos uma essência pronta. Primeiro existimos; depois, por meio de nossas escolhas, relações e experiências, vamos construindo aquilo que somos. Essa liberdade pode ser assustadora, porque traz consigo a responsabilidade. Mas ela também pode ser profundamente esperançosa. Se não estamos definitivamente prontos, também não estamos definitivamente condenados a permanecer como estamos.
Somos travessia.
O jovem que sofre hoje não precisa ser reduzido ao sofrimento que experimenta. O estudante que fracassa numa prova não se torna um fracasso. A criança que não aprende no mesmo ritmo das outras não possui menor valor. A pessoa que adoece não perde a dignidade. Ninguém deveria ter sua existência resumida ao pior dia de sua vida, a uma crise, a um diagnóstico, a uma nota ou a uma expectativa não alcançada.
Há sempre alguma coisa por construir.
Contudo, essa construção não acontece no isolamento. Embora a existência seja pessoal e ninguém possa viver em nosso lugar, não existimos sozinhos. O olhar do outro pode nos ferir, aprisionar e transformar em objeto; mas também pode nos reconhecer, acolher e devolver ao mundo. Há encontros que não resolvem imediatamente os nossos problemas, mas interrompem a sensação de que precisamos enfrentá-los sozinhos.
Às vezes, o primeiro gesto de cuidado é simplesmente permanecer ao lado.
Dizer: “Eu vejo você.”
Dizer: “Sua dor não me assusta.”
Dizer: “Você não precisa explicar tudo agora.”
Dizer: “Vamos procurar ajuda juntos.”
Talvez seja essa a tarefa mais humana da educação: ensinar alguém a existir sem precisar esconder de si mesmo aquilo que sente. Mostrar que vulnerabilidade não é sinônimo de fraqueza; que pedir ajuda não diminui ninguém; que saúde mental não é a ausência permanente de sofrimento, mas a possibilidade de atravessá-lo com consciência, apoio e cuidado.
Por isso, ao revisitar minha proposta de palestra, compreendi que ela não deveria começar pela doença. Deveria começar pelo sujeito. Não pelo diagnóstico, mas pelo nome. Não pelo comportamento que incomoda, mas pela história que ainda não foi escutada. Não pela pergunta “o que há de errado com você?”, mas por outra, muito mais humana:
“O que aconteceu e como podemos caminhar juntos?”
É sobre existir.
É sobre reconhecer que, por trás de cada uniforme, há um universo que não aparece no boletim. Que cada educando carrega medos, desejos, ausências, expectativas e batalhas que talvez jamais consiga transformar em palavras. É sobre lembrar que nenhum resultado acadêmico justifica o desaparecimento emocional de uma pessoa. E que uma instituição verdadeiramente comprometida com a formação integral não prepara seus estudantes apenas para passar em provas: prepara-os para atravessar a vida.
Talvez nunca consigamos preencher completamente o vazio. Sartre provavelmente desconfiaria de qualquer promessa pronta de sentido. O sentido não está depositado em algum lugar, esperando ser encontrado como uma resposta definitiva. Ele é construído na maneira como escolhemos viver, naquilo que fazemos com o que fizeram de nós e, sobretudo, na responsabilidade que assumimos diante da existência do outro.
Por isso, falar sobre saúde mental é também um compromisso ético. É recusar a indiferença. É romper o silêncio antes que ele se transforme em abismo. É perceber que, às vezes, quem está ao nosso lado não precisa de uma grande explicação filosófica, mas de alguém que permaneça presente o suficiente para escutar.
Existo.
Penso.
Estou aqui.
Mas não estou sozinho.
Talvez seja essa a frase que nossas crianças e nossos jovens mais precisem aprender. E talvez seja essa a resposta que nós, educadores, famílias e instituições, tenhamos a responsabilidade de lhes oferecer.
Porque educar também é reconhecer uma existência.
Acolher também é afirmar uma existência.
Escutar também é proteger uma existência.
E, em tempos nos quais tantas pessoas apenas sobrevivem enquanto aparentam viver, falar abertamente sobre saúde mental é recordar aquilo que nenhuma escola deveria permitir que seus educandos esquecessem: antes de qualquer nota, desempenho, aprovação ou resultado, há alguém ali.
Alguém que existe.
Alguém que sente.
Alguém cuja vida importa.
“J’existe parce que je pense…” — “Existo porque penso.”
Se há pensamento, portanto, há algo de sagrado em nossas mãos: a existência de quem procura sentido, ou ainda, quem procura ser ouvido, quem procura por alguém.


